Os que me seguem

domingo, 2 de março de 2008

Caso engraçado

Tombos é uma cidadezinha mineira, lá da Zona da Mata, subidinha da serra do Caparaó, cheinha de gente simpática, que adora receber visitas para um cafezinho, uma broa de milho, um dedo de prosa. Gente sem as neuroses das cidades grandes. Aquela coisa de fechar vidro de carro, trancar as portas de casa a cada hora que entra e sai, fechar as janelas na hora de dormir, cercar casas com grades, porteiro eletrônico e demais badulaques de cidade grande. Até aí nada de novo, né?

O problema, gente, é quando você diz, sem segundas intenções, que há anos não come um cabrito (sem segundas intenções, claro).

Explico.

Falei do meu desejo de comer uma cabritada, numa roda de cerveja no Bar da Terezinha. Falei por falar, afinal a conversa girava sobre gastronomia: onde comer um bom feijão tropeiro, um orapronobis com galinha era o de Dona Santinha, saudades do chouriço do seu Zé Linguiça... etc., etc.

Aqui começa a sua (minha) via crucis.

Pois é, leitor... A mesa fez-se muda. Todos dirigem os olhos pra mim. De repente todos falam ao mesmo tempo. A gentileza reaparece e resolvem em uníssono (pra fazer minha vontade, eu acho) comprar um cabritim (como dizem) e comemorar a nova amizade que está nascendo.

Você a muito custo, já cheio de repetir "não, obrigado", "não é isso pessoal" e sem jeito diante das insistências, acaba aceitando a "homenagem" ou coisa que o valha.

Como é de bom-tom retribuir tanta gentileza, você, também, acaba aceitando o convite pra ir junto comprar o cabritim. Não pra pagar, que eles não deixam. Esse comprar é só pra acompanhar. E como está passeando, por que não?

Quando me vi dentro do carro do Beto, estranhei. Afinal o açougue era logo ali na esquina. Quando passamos pelo dito, pelo outro e pelo outro e pegamos uma estrada de terra, não entendi. Fui logo perguntando o por quê. Beto me responde de bate-pronto:

– Uai, sô, cabritim fresco só lá na fazenda de seu Quim Cabritêru!
Aí começa sua (minha) danação. Te chamam, afinal ocê é turista, pra ir ver qual cabritim cê qué.

E tome de subir morro, descer morro atrás do tal do cabritim. Lá pelas tantas, quando ocê já tá botando os bofes pela boca, cheio de carrapatos grudados na perna, alguém grita:

– Tão lá, óia!

Eu confesso, não vi nada. Mas dois morros depois havia uns cem ou duzentos cabritins. E tome correria pra cercar us danado. Pra não fazer feio ainda dei uma corridinha, mas parei na primeira árvore que vi. Me sentei e fiquei olhando aqueles desesperados tentando cercar aquela manada (atenção, revisor. É manada, mesmo!) que berrava desesperadamente. E vinham em minha direção. Na frente um bode velho com um chifre enorme, em desabalada correria, me olhava com ódio dentro dos olhos. Eu acho. Só sei que mesmo achando, subi no primeiro galho daquela árvore salvadora.

Quando o bruto passou ainda deu uma olhada de soslaio pra cima, mas acredito que não tinha tempo pra me dar umas porradas. Ou umas chifradas. Atrás dele vinha aquela quantidade enorme de cabritins e cabritões correndo, levantado poeira.

Vi Beto, Biriba, Titão e seu Quim andando morro abaixo, pitando cigarro de palha e conversando animadamente. Tratei logo de descer pra não pagar vexame.

Ele me viram, me olharam estranhando aquele homenzão descendo da árvore, mas acho que por educação não falaram nada.

E lá fomos nós pro curral, escolher o cabrito. Depois de meia hora cercando,pegando, apertando e analisando não-sei-o quê, escolheram unzinho. Pensei que o fossem matar ali. Na bucha! Me senti aliviado quando, depois de pesado, amarraram a perna do cabritim, enfiaram-no dentro de um saco de estopa (me disseram que era prele ficar calmo) e colocaram no porta-malas do carro.

Pagamos (eles pagaram) e Beto saiu numa acelerada toda cantando pneu.

– Temu de corrê sinão o bichim morre e aí adeus cabritada.

E lá vamos nós levantando poeira e escutando o bichim fazendo béééé! béééé!!! Meu coração com pena. Meu estômago embrulhando. Meu cérebro querendo comer um cabrito. Travei uma luta feroz dentro de mim. Tampei meu ouvido, fumei três cigarros e joguei meus pensamentos pra bem longe...

Pensei que minha aventura estivesse acabada. Iria pra casa tomar um banho, catar carrapato e mais tarde, descansado, almoçar a Cabritada à moda de Tombos.

Engano puro.

– Merda! – falei baixinho.

Beto me levava direto pro Matadouro Municipal. Ia procurar seu Lilino, o carrasco de todo bicho de quatro patas. Nenhum escapava, me dizia ele.

Comecei a imaginar o que iria acontecer. Já via sangue, tripas, pulmões rolando pelo chão. Aquela sangueira toda... Hum?!

Tentei ficar no carro, mas seu Lilino me puxou pelo braço e foi, naquela conversa pra boi dormir, me levando lá pro lado de lá. O lado de lá era onde.

Sim, leitores, onde... onde... Como dizer sem chocar? Mas como tudo já estava politicamente incorreto, que se dane! Deixeu contar... O lado de lá era onde matavam, assassinavam, como queiram...

A técnica é simples e singela: amarraram o coitado de pernas pro alto. E tome balido! E simplesmente seu Lilino cortou, primeiro, a carótida. Aparou o sangue numa vasilha. E num golpe, a cabeça rolou no chão.

Eu? Eu estava em choque. Me perguntando onde estava a inocência daquelas pessoas, a gentileza, a doçura... Beto me cutucou. Eu acordei e vomitei ali mesmo. Todos me olharam apavorados. Seu Lilino largou os apetrechos no chão e junto com Beto, Biriba e os demais me pegaram pelos braços e, apesar de estar meio grogue, escutei baixinho...

– Vamos levar ele pro hospital... Coitado... Um cabritim à toa e ficou assim... Imagina se viesse ver os boi, os carnero...

Até riram um pouquinho. Mas a educação mineira não permitiu mais do que isso.

Só sei que, entre quatro paredes, fui o assunto predileto da cidade. Virei o Carioca do Cabritim. Numa boa. Espero que um dia, quando voltar, tenham esquecido o vexame que dei. O que duvido.

A cabritada? Com balido ou sem balido me atormentado, politicamente incorreto ou não (que se danem os puristas!), comi como um desesperado.

Tava boa por demais da conta, sô!


A receita:

1 cabrito novo e pequeno cortado em pedaços
Vinho branco que baste
5 dentes de alho
2 cebolas das grandes
Azeite que baste
1 ramo de cheiro-verde
Folhas de louro
Pimenta-do-reino que baste
Sal que baste
1 quilo de tomates maduros e dos grandes.
3 caixas de massa de tomate

Preparação:

Coloque a carne para marinar em vinha d'alhos por 24 horas. Cozinha-se a carne em água temperada com sal. Prove e se precisar acrescente mais sal. Quando a carne estiver cozida, retire-a da água.

Frite o cabrito no azeite e quando estiver moreninho retire e reserve.

Molho:

Retire a casca do tomate e corte-o em tiras. Reserve as sementes e a polpa. Bata a polpa e as sementes no liquidificador. Coe e reserve.

Numa panela grande acrescente a massa de tomate, 3 medidas de água (meça pela caixinha da massa de tomate) e o líquido obtido das sementes e polpas. Deite 5 colheres de sopa de azeite no molho. Pique uma cebola em gomos e acrescente ao molho. Açúcar que baste para retirar a acidez do tomate. Sal. Pimenta-do-reino. Ferva, prove o sal e a pimenta. Abaixe o fogo e deixe cozinhar por uma hora ou mais. Mexa de vez em quando o molho com uma colher de pau.

Quando estiver quase pronto acrescente um pouco de cheiro-verde.

Numa vasilha grande coloque o cabrito e verta o molho sobre as carnes. O molho deverá cobrir todo o cabrito.

Para acompanhar:

Arroz branco e pão de sal cortadinho.

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